O poder da natureza em dar respostas ao tratamento de doenças e enfermidades ainda não é conhecido, nem de perto, em sua totalidade

Investigar a fundo os efeitos terapêuticos das espécies de flora da região de Mata Atlântica, onde está o Parque Ecológico Imigrantes (PEI), é entrar por um mundo de diversidade biológica, genética e cultural ainda a ser desbravado. Esse universo, repleto de dúvidas e polêmicas entre medicina, indústria farmacêutica, o uso de plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos está em pleno debate na sociedade; e a preservação de áreas como a do PEI pode ajudar o homem a entender um pouco mais sobre os agentes biologicamente ativos presentes na região.

Guaco ou erva de bruxa, copaíba ou pau-de-óleo, cipó escada de macaco, espinheira santa, erva do bugre e avenca são alguns dos nomes populares de plantas com propriedades medicinais que José Odali Carlos Barbosa (53), nascido em Teresina (PI) e funcionário do PEI, explica possuírem diferentes efeitos terapêuticos. Todas elas são encontradas na região.

A Mata Atlântica é uma rica fonte de recursos naturais com diversas espécies endêmicas. Segundo as biólogas e pesquisadoras Gemima C. Cabral Born e EIiana Rodrigues, no livro Plantas medicinais: conservação e desenvolvimento na Mata Atlântica, “as comunidades locais e tradicionais e os grupos étnicos (índios e remanescentes de quilombos), que vivem em áreas da Mata Atlântica, detêm grande conhecimento sobre a dinâmica e o uso de vários recursos naturais dessa mata”.

Para Barbosa, a biodiversidade ajuda como complemento para tratamentos realizados por profissionais da saúde. “Quando as pessoas moram em regiões isoladas, em florestas, sem acesso fácil ao atendimento médico, as plantas medicinais são as únicas saídas para aliviar dores e tratar doenças. Esse é um conhecimento que se passa de geração em geração, mas o certo é que todos tenham acesso à medicina para fazerem o tratamento”, explica ele.

A professora e farmacêutica Claudiana Lameu Gomes, do Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química da USP, explica que “na área da descoberta de medicamentos a biodiversidade brasileira apresenta uma infinidade de modelos para o desenvolvimento de fármacos. Em especial, as plantas constituem um enorme laboratório de síntese orgânica, fruto de milhões de anos de evolução e adaptação sobre a Terra. A fantástica variedade e complexidade de metabólitos especiais biossintetizados pelas plantas teriam se formado e evoluído, como mecanismo de defesa desses vegetais às condições ambientais ricas em microorganismos, insetos, animais e também às condições de adaptação e regulação”.

A pesquisadora salienta ainda que apesar de todo avanço na ciência, a sociedade deve muito respeito aos povos indígenas e à sabedoria popular que são capazes de produzir informações sobre produtos naturais, importantes para a produção industrial de fármacos que aliviam dores e tratam doenças humanas.

Barbosa conta que adquiriu o conhecimento sobre plantas medicinais desde a infância, quando morava em Teresina, no Piauí. Segundo ele, o chá de guaco é um expectorante e ajuda a combater a tosse e a eliminar o catarro. Já o óleo da copaíba é um diurético e antiinflamatório. O cipó de escada ou de macaco serve para combater o colesterol, além de ser um antiinflamatório. E a espinheira santa é utilizada como chá para combater a gastrite e a úlcera.

Embora, as plantas sejam fontes riquíssimas de compostos ativos para o tratamento de doenças, muitos estudos precisam ser feitos para avaliação da sua eficácia e segurança, por isso a população precisa ter muito cuidado com qualquer promessa de cura ou tratamento, se não há aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), atenta a professora Gomes.

O SUS tem cerca de 12 medicamentos fitoterápicos em sua lista, o que significa uma estratégia de inclusão social pelo baixo custo de tipo de medicamento. Recentemente, a Anvisa lançou um documento oficial que orienta o profissional da saúde a prescrever fitoterápicos, o que até então não existia. Tal documento contém informações sobre a planta, forma de uso, indicação e também contraindicação.

Segundo a Anvisa, em seu site, as drogas vegetais não podem ser confundidas com os medicamentos fitoterápicos. Ambos são obtidos de plantas medicinais, porém, elaborados de formas distintas. Enquanto as drogas vegetais são constituídas da planta seca, inteira ou rasurada (partida em pedaços menores), utilizadas na preparação dos populares “chás”, os medicamentos fitoterápicos são produtos tecnicamente mais elaborados, apresentados na forma final de uso (comprimidos, cápsulas e xaropes).

Embora esse tipo de prática seja usada como terapia natural, não significa que há efeitos colaterais, ou seja, 100% segura para o consumo humano. Os medicamentos à base de plantas e os chamados fitoterápicos precisam ser aprovados quanto à sua qualidade, eficácia terapêutica e segurança como qualquer outro tipo de medicamento. “Só é possível dizer que o uso de plantas é seguro para fins terapêuticos depois de muitos estudos de toxicidade”, ressalta Gomes.

O homem busca na natureza recursos para aliviar a dor e tratar doenças há milhares de anos. No entanto, foi só no século XIX que se iniciou a busca por princípios ativos que proporcionaram condições para os primeiros medicamentos sintetizados em laboratório com alvo e ação conhecidos e validados, em formato farmacêutico. Isso aumentou a eficácia dos tratamentos com a correta administração, seja por via oral, comprimidos ou soluções orais, intravenosa ou intramuscular.