Atividades de mamíferos em busca de alimentos estimulam a reciclagem da mata
Antas, queixadas, catetos e veados (animais mamíferos, herbívoros ou frugívoros) desempenham papel de “engenheiros do ecossistema” ao modificar diretamente a química do solo e elevar a fertilidade na Mata Atlântica. É o que aponta reportagem divulgada pela Folha de S.Paulo, com base em estudo publicado no periódico científico Ecological Monographs e destaque na Agência Fapesp.
A pesquisa demonstra que hábitos do cotidiano dessas espécies — tais como pisotear e revirar a terra em busca de alimentos, além de urinar e defecar no chão florestal — estimulam a reciclagem de nutrientes e a decomposição da serrapilheira (camada de matéria orgânica composta por folhas, frutos e galhos).
A investigação foi liderada pela pesquisadora Letícia Gonçalves Ribeiro em seu doutorado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro. O projeto vincula-se ao Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima/CEPID) e contou com a participação do professor e pesquisador Mauro Galetti, além de cientistas e colaboradores internacionais.
A metodologia comparou dados acumulados em um experimento de longo prazo mantido no Parque Estadual Carlos Botelho — localizado no Vale do Ribeira (SP) —, onde parcelas abertas à livre circulação da fauna foram confrontadas com áreas cercadas para barrar o acesso de grandes mamíferos.
Os resultados comprovaram que a circulação contínua dos animais provoca alterações benéficas evidentes na terra, reduzindo os níveis de alumínio — elemento químico tóxico para o desenvolvimento vegetal quando acumulado em excesso — e equilibrando o pH e a presença de cálcio. Esse balanceamento melhora a disponibilidade geral de nutrientes e propicia um ambiente favorável ao crescimento vegetal. Os cientistas enfatizam que a biomassa de mamíferos como as queixadas, que se deslocam em grandes bandos, acelera a ciclagem biogeoquímica de maneira essencial para a saúde e vigor vegetacional.
Por fim, os autores da pesquisa reforçam que esses dados evidenciam o risco silencioso provocado pela caça ilegal e pela perda de fauna (defaunação) no bioma. Mesmo em áreas onde a vegetação aparenta estar visualmente preservada ou intacta, a escassez ou extinção local de grandes mamíferos empobrece quimicamente o solo e prejudica o funcionamento do ecossistema a longo prazo. Dessa forma, proteger essas espécies é uma medida indispensável não apenas para a conservação animal, mas para garantir a própria riqueza e resiliência da Mata Atlântica.
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