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Como a destruição da cobertura vegetal ameaça o abastecimento e agrava inundações na metrópole

O Parque Ecológico Imigrantes (PEI) cumpre papel importante na segurança hídrica e no equilíbrio ambiental da Região Metropolitana de São Paulo. Sua floresta funciona como uma infraestrutura natural que abriga cursos d’água nativos, os quais recortam o terreno do parque e descem em direção à Represa Billings, um dos maiores e mais importantes reservatórios de abastecimento da Grande São Paulo.

A relação entre a integridade dessas florestas e a sobrevivência dos corpos d’água é íntima e indissociável, de modo que, quando a cobertura vegetal é destruída, o impacto no ciclo da água é imediato e devastador. Segundo o engenheiro mecânico, com doutorado em engenharia hidráulica e saneamento, Marcelo Montaño, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP), “a vegetação atua em diferentes aspectos do ciclo hidrológico, contribuindo diretamente para a disponibilidade hídrica por meio da evapotranspiração e facilitando a retenção/armazenamento de água no solo e a recarga de cursos de água e aquíferos”.

Montaño, junto com o seu aluno Edimilson Rodrigues dos Santos Júnior, mapeou 261 mil hectares (ha), o equivalente a 2,6 mil quilômetros quadrados (km²) de áreas periurbanas – nas bordas das cidades – situadas em 39 cidades do centro-leste paulista. No estudo, eles identificaram 47 mil ha de áreas úmidas e examinaram as transformações que sofreram entre 1985 e 2020.

“A supressão de florestas torna os corpos e cursos d’água mais vulneráveis aos agentes de degradação (por exemplo, erosão, assoreamento, contaminação, diminuição da qualidade, entre outros), explica Montaño.

Segundo os pesquisadores, as áreas com vegetação contribuem para a estabilidade das margens dos cursos de água, reservatórios e áreas de nascentes, e consequente controle do aporte de sedimentos diretamente nos corpos hídricos.

Dessa forma, proteger locais como o Parque Ecológico Imigrantes e restaurar as margens dos nossos reservatórios não é apenas uma bandeira ecológica, mas uma medida urgente de sobrevivência urbana.

“De modo mais amplo, a vegetação desempenha funções sistêmicas a partir de relações complexas entre os elementos e processos que integram os ecossistemas, contribuindo para o equilíbrio dinâmico da qualidade do ambiente e, evidentemente, dos seus componentes”, esclarece o especialista.

Montaño pondera que há duas perspectivas a serem consideradas – a contribuição específica de cada área de preservação e o aporte dos mosaicos e sistemas de áreas de preservação em sua totalidade. Individualmente, a relevância local das áreas protegidas tem relação direta com o contexto em que se inserem.

Deste modo, tomando o PEI como exemplo, sua área pode ser considerada pequena como elemento de proteção hídrica levando-se em consideração toda a bacia hidrográfica, mas nem por isso pode ser desprezada.

Além de garantir água limpa, a preservação florestal é a melhor engenharia preventiva contra as inundações urbanas que assolam a metrópole, atuando diretamente na contenção das chuvas.

Ações para evitar desastres

As mudanças climáticas tornam a necessidade de avançar nas ações de preservação ambiental urgentes. Diante da degradação crônica das bordas da represa Billings e de outros mananciais paulistas, o cenário de vulnerabilidade extrema se agrava com a perspectiva de um El Niño rigoroso em 2026.

Neste contexto, Montaño alerta que o custo humano, urbano e social tende a ser severo. “Embora não seja uma questão restrita ao estado de SP, temos caminhado muito lentamente na promoção de medidas de adaptação aos eventos climáticos intensos em uma escala que contemple as milhões de pessoas que habitam as grandes e médias cidades, sobretudo”, ressalta o engenheiro.

Para Montaño, a cada ciclo de ocorrência de eventos desta natureza, nos vemos diante de um cenário já conhecido, de intensa degradação ambiental, urbana e social, muitas vezes acompanhada de catástrofes com perda de vidas, intenso prejuízo econômico, que não são seguidas pelas devidas mudanças nas ações que envolvem o Poder Público e a sociedade.

O grande desafio atual reside em romper com a postura reativa e focar os investimentos públicos na raiz do problema, em vez de apenas remediar as consequências através de obras de engenharia que ignoram a dinâmica natural.

De forma contundente, Montaño conclui que “há, claramente, um estado de aprisionamento dentro de um ciclo vicioso que prioriza medidas de mitigação baseadas na diminuição dos prejuízos associados aos eventos climáticos sem, contudo, atuar nas suas causas (sistêmicas) e na adaptação das cidades à nova realidade.

Licença Flickr / Autor: gaborbasch

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