Como uma espécie invasora silencia a biodiversidade da Mata Atlântica
A presença da jaqueira, uma espécie exótica originária da Ásia, tem provocado transformações silenciosas e profundas na estrutura da Mata Atlântica, impactando desde a química do solo até a sobrevivência de pequenos mamíferos e anfíbios. No Parque Ecológico Imigrantes (PEI), onde a conservação da biodiversidade nativa é prioridade, entender esses efeitos é crucial para estratégias de manejo e restauração.
Estudos recentes revelam que a invasão por jaqueiras altera física e quimicamente a serapilheira — a camada de folhas e matéria orgânica que recobre o solo —, tornando-a mais rasa e menos diversa em termos de micro habitats. De acordo com a Juliane Pereira Ribeiro, doutora em Ecologia e Evolução e pesquisadora na área de ecologia de comunidades e conservação da biodiversidade da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), essa simplificação do ambiente terrestre resulta em uma redução drástica na abundância de artrópodes, os pequenos invertebrados que formam a base da cadeia alimentar da floresta.
“Embora ainda não se saiba com exatidão quanto tempo o solo leva para recuperar sua complexidade original após a retirada das jaqueiras, evidências na literatura científica sugerem que a recuperação é um processo gradual. Enquanto aspectos estruturais, como a profundidade da folhagem depositada, podem começar a se normalizar em poucos anos com a regeneração de plantas nativas, a recomposição total das comunidades de microrganismos e insetos do solo costuma ser muito mais lenta”, explica Ribeiro.
A velocidade desse retorno depende diretamente da intensidade da invasão prévia e da presença de matas nativas remanescentes que possam fornecer colonizadores para as áreas em recuperação, ressalta a pesquisadora. Por isso, o monitoramento de longo prazo torna-se uma ferramenta indispensável para compreender como o ecossistema responde às ações de controle dessas árvores invasoras.
“Os impactos da jaqueira se estendem para além dos invertebrados, provocando uma reorganização das comunidades de vertebrados” pontua Ribeiro.
Pesquisas indicam que a grande oferta de frutos favorece espécies oportunistas e frugívoras, como o gambá-de-orelha-preta e o rato-espinhoso, que se tornam mais abundantes em áreas dominadas por essa árvore. Em contrapartida, pequenas cuícas insetívoras, como a cuíca-de-três-listras e a cuíca-cinza, perdem espaço devido à escassez de insetos no solo alterado.
Segundo Ribeiro, esse desequilíbrio cria um efeito de homogeneização da fauna, onde poucas espécies dominam o cenário em detrimento de uma biodiversidade mais rica e equilibrada, essencial para a resiliência da floresta frente a pressões externas.
Essa perda de complexidade biológica também torna a Mata Atlântica mais vulnerável às mudanças climáticas. Em florestas preservadas, a serapilheira espessa e a vegetação estratificada funcionam como um isolante térmico natural, retendo a umidade do solo e protegendo os organismos de ondas de calor ou secas prolongadas.
No entanto, em ambientes simplificados pela dominância da jaqueira, essa capacidade de amortecimento térmico é reduzida. “Para os anfíbios, que dependem criticamente da umidade para suas funções fisiológicas, o solo mais seco e exposto representa um risco direto à sobrevivência”, alerta a pesquisadora.
Assim, o controle de espécies invasoras no PEI se torna uma medida vital para garantir que a floresta mantenha sua capacidade de regular o microclima e proteger a vida silvestre em um planeta em aquecimento.
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