El Niño amplia desafios para proteger o Parque Ecológico Imigrantes
A perspectiva de um El Niño de intensidade excepcional traz desafios para a conservação do Parque Ecológico Imigrantes (PEI). Seus cursos d’água, as mudas das áreas em recuperação e a fauna podem sentir os efeitos de temperaturas mais altas e das mudanças na distribuição das chuvas. Segundo Bruno Barbanti, biólogo do parque, compreender como esses impactos se manifestam localmente é fundamental para orientar a prevenção e o manejo.
“No Sudeste, a influência do El Niño sobre as chuvas não ocorre de maneira uniforme”, explica. Na região do PEI, o fenômeno pode favorecer ondas de calor, veranicos e estiagens, mas também episódios de precipitação intensa. “Assim, o principal efeito esperado é uma maior irregularidade climática, e não necessariamente uma redução contínua das chuvas.”
O cenário exige atenção nos próximos meses. Segundo reportagem da revista Pesquisa Fapesp, projeções científicas apontam que o episódio poderá se tornar o mais intenso já registrado, com efeitos agravados pelo aquecimento global. Trata-se de uma possibilidade, ainda dependente da evolução do fenômeno.
No parque, um dos principais pontos de atenção são as áreas recém-restauradas. Nelas, a vegetação ainda está se estabelecendo e apresenta menor resistência às condições adversas. “Mudas e plantas jovens possuem raízes menos desenvolvidas e são mais sensíveis à falta de água e ao calor, o que pode reduzir o crescimento e aumentar a mortalidade”, explica o biólogo.

Outro aspecto relevante é a gestão da água. O PEI possui cerca de sete cursos d’água que seguem em direção à Represa Billings. Períodos prolongados de seca podem diminuir as vazões, reduzir a umidade do solo e comprometer a recarga hídrica local.
“Ao mesmo tempo, o calor aumenta a evaporação da água e a perda de umidade pela vegetação, podendo afetar plantas, animais e organismos aquáticos”, afirma Barbanti. No outro extremo, chuvas muito fortes favorecem o escoamento pela superfície e podem carregar solo e sedimentos para os córregos, tornando necessário acompanhar também a qualidade da água.
Quando a chuva chega de forma concentrada, os plantios também podem sofrer danos, sobretudo em encostas e trechos com pouca cobertura vegetal, onde há risco de exposição das raízes. Para Barbanti, acompanhar a sobrevivência e o desenvolvimento das mudas permite identificar a necessidade de manutenção ou replantio.
Entre as medidas que podem ser necessárias, estão a irrigação emergencial, a conservação da cobertura do solo e o controle da erosão, com prioridade para os plantios mais recentes.
Esse trabalho deve integrar uma observação mais ampla das condições do parque. O biólogo recomenda reforçar o monitoramento de chuva, temperatura, umidade do ar e do solo, além das vazões dos córregos e de sinais de estresse nos animais e na vegetação. Os dados podem orientar decisões de manejo conforme os efeitos se apresentem.

A prevenção de incêndios é outra frente essencial. “Também é importante revisar o plano de contingência contra incêndios, capacitar a brigada, manter equipamentos e acessos operacionais”. Ele recomenda acompanhar diariamente os alertas meteorológicos e o risco de fogo, com ações articuladas ao Corpo de Bombeiros, à Defesa Civil e aos órgãos ambientais.
A dimensão dos riscos do calor aparece em estimativa do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago, divulgada pela Folha de S. Paulo. Nela, o Brasil poderá registrar cerca de 13,3 mil mortes relacionadas ao calor extremo entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. A projeção reforça a importância de antecipar medidas de proteção.
Esses riscos atingem a população de maneira desigual. Em entrevista à Pesquisa Fapesp, Denise Duarte, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, explica que condições de moradia, renda e acesso à infraestrutura influenciam a vulnerabilidade. A pesquisadora destaca que áreas verdes podem ajudar a reduzir a exposição ao calor, mas precisam oferecer sombra e condições adequadas para receber as pessoas.
< Voltar