Relatório aponta esperança na recuperação de ecossistemas
A biodiversidade do planeta enfrenta um cenário preocupante, mas a natureza ainda demonstra capacidade de recuperação quando encontra condições favoráveis. Essa é uma das principais mensagens do Relatório Planeta Vivo 2026, lançado em outubro pela organização ambiental WWF, em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres (ZSL). O documento chama a atenção para os impactos das atividades humanas sobre os ecossistemas e reforça a importância de iniciativas de conservação, restauração ambiental e monitoramento da vida silvestre.
Na Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do Brasil, a proteção dos remanescentes florestais é fundamental para garantir a sobrevivência das espécies e a manutenção dos serviços ambientais. O Parque Ecológico Imigrantes (PEI), na região da Serra do Mar, é um exemplo de como a conservação de áreas naturais, associada à pesquisa científica, permite acompanhar as transformações da floresta e compreender sua capacidade de regeneração.
Segundo o biólogo do PEI, Bruno Barbanti, o acompanhamento da biodiversidade exige diferentes técnicas de observação e estudos realizados ao longo do tempo. “Combinamos métodos diferentes. Usamos armadilhas fotográficas espalhadas pela mata e registramos pegadas, fezes e marcas deixadas nas trilhas. Além disso, fazemos levantamentos com pesquisadores da Unifesp. O de aves, por exemplo, usa busca ativa, gravação de cantos nas estações seca e chuvosa”, explica.
Para avaliar a saúde do ecossistema, os pesquisadores observam a presença de animais de grande porte, a ocorrência de espécies que dependem de florestas bem conservadas e a continuidade desses registros. “Estudos mostram que só é possível perceber declínio ou recuperação quando as populações são acompanhadas por muitos anos”, ressalta Barbanti.
Função do PEI
A história ambiental do Parque Ecológico Imigrantes também ajuda a compreender como a natureza responde à proteção. Atualmente, a vegetação do local encontra-se em processo de regeneração e desempenha uma importante função ecológica na conexão entre a região dos mananciais da Represa Billings e a Serra do Mar.
Entre os indicadores dessa transformação está o vira-folha, uma ave que depende da presença de uma camada bem desenvolvida de folhas sobre o solo da floresta. Sua ocorrência pode indicar o amadurecimento das condições ambientais. Outro exemplo são os anfíbios que vivem na água acumulada no interior das bromélias, organismos particularmente sensíveis às alterações do ambiente e que também são objeto de pesquisas no parque.
“Antes desses estudos, havia poucos dados sobre o parque. Esse conhecimento orienta o manejo da área e serve de referência para outros fragmentos da região”, afirma Barbanti.
Monitoramento da biodiversidade
O relatório internacional analisou 35.803 séries de dados referentes a 5.790 espécies de vertebrados, entre mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, no período de 1970 a 2022. Os resultados apontam uma redução média de 73% no tamanho das populações monitoradas. A situação é particularmente preocupante na América Latina e no Caribe, onde o declínio médio chegou a 95%. Os ambientes de água doce foram os mais afetados, com redução de 85%, seguidos pelos ecossistemas terrestres e marinhos.
Apesar dos números, o estudo também apresenta motivos para o otimismo. Aproximadamente metade das populações acompanhadas permaneceu estável ou apresentou crescimento. No Brasil, uma iniciativa de conservação contribuiu para o crescimento de 280% de uma população monitorada de onças-pintadas na Mata Atlântica, entre 2019 e 2025.
No Parque Ecológico Imigrantes, a presença de determinadas espécies também ajuda a compreender a qualidade ambiental da floresta. Uma das mais importantes é a anta, considerada vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
“A anta é a principal. Ela é considerada vulnerável pela IUCN e ameaçada na Mata Atlântica, e o seu papel vai além do simbólico: ao se alimentar de frutos, ela espalha sementes, principalmente de palmeiras, e ajuda a floresta a se renovar”, destaca Barbanti.
Foto: Alini Galli – Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás – Creative Commons
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